Perigos radiológicos em alimentos: você sabe o que são?

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O FDA publicou um guia para auxiliar a indústria no desenvolvimento do estudo de análise de perigos e estabelecimento de controles preventivos baseados em risco para alimentos de consumo humano (Hazard Analysis and Risk-Based Preventive Controls for Human Food).

Profissionais da área de segurança de alimentos, em especial aqueles que trabalham na indústria alimentícia e que fabricam produtos exportados para os Estados Unidos, já devem ter se deparado com a demanda de identificar os possíveis perigos radiológicos em seus produtos. Vamos relembrar o conceito de perigo à segurança de alimentos: “agente biológico, químico ou físico, ou condição do alimento, com potencial de causar um efeito adverso a saúde” (NBR ISSO 22000:2006). O FDA (Food and Drug Administration), órgão responsável pela regulamentação e fiscalização de alimentos nos Estados Unidos, publicou em 2011, a FSMA – Food Safety Modernization Act, ou seja, a Lei de Modernização da Segurança de Alimentos. A FSMA tem como objetivo atualizar a regulamentação da higiene dos alimentos, focando em controles preventivos dos perigos à segurança dos alimentos, e verificar fornecedores estrangeiros. Só não é aplicável para carnes, aves e ovos processados, cuja regulamentação é de competência de outro órgão, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

O FDA publicou um guia para auxiliar a indústria no desenvolvimento do estudo de análise de perigos e estabelecimento de controles preventivos baseados em risco para alimentos de consumo humano (Hazard Analysis and Risk-Based Preventive Controls for Human Food). Neste guia, há algumas orientações relacionadas aos perigos radiológicos. Fizemos um resumo:

O que são os perigos radiológicos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os perigos radiológicos raramente ocorrem na cadeia produtiva de alimentos. No entanto, quando aparecem, estes perigos podem representar um risco significativo se a exposição a eles acontecer durante certo período de tempo. O consumo de alimentos contaminados com radionuclídeos aumentam a quantidade de radioatividade à qual a pessoa é exposta, o que pode gerar efeitos adversos à saúde. Estes efeitos dependem do radionuclídeo e da quantidade de radiação à qual a pessoa for exposta. Por exemplo, a exposição a certos níveis de iodo radioativo está associada com um aumento no risco de surgimento de câncer de tireoide. O glossário de termos utilizados em energia nuclear, da CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear, ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Brasil, explica que um radionuclídeo (também chamado de radioisótopo ou isótopo radioativo) é um isótopo instável de um elemento que decai ou transmuta espontaneamente, emitindo radiação ionizante. É importante também lembrar que isótopos são dois ou mais nuclídeos que possuem o mesmo número atômico, mas com diferentes massas atômicas. Isótopos possuem propriedades químicas iguais, mas algumas propriedades físicas diferentes.

Como os perigos radiológicos podem contaminar um alimento? Quais são as fontes?

De acordo com o artigo escrito por Gary C. Smith, membro da diretoria da Food Safety Net Services (FSNS), os perigos radiológicos podem ser incorporados aos alimentos através do uso de água com presença de radionuclídeos, na produção ou manufatura do alimento. Certas regiões no mundo apresentam alta concentração de certos radionuclídeos, tais como Rádio-226, Rádio-228, Urânio-235, Urânio-238, Plutônio-239, Estrôncio-96, Iodo-131 e Césio-137, podendo ser detectada em água, especialmente de poço artesiano. A contaminação de alimentos com perigos radiológicos também pode acontecer quando há um vazamento acidental de uma usina nuclear ou nos danos causados em usinas nucleares em casos de desastres naturais, como por exemplo, o terremoto seguido de tsunami no Japão, em 2011. Após os danos causados numa usina de geração de energia nuclear durante o terremoto e o tsunami, foi detectada radioatividade em alguns alimentos, particularmente leite, vegetais e frutos do mar produzidos nas regiões vizinhas à usina.

Quais medidas podem ser tomadas para evitar a contaminação com perigos radiológicos?

A primeira medida é assegurar a potabilidade da água utilizada na fabricação do alimento, seja de uso direto (por exemplo, como ingrediente) ou indireto (por exemplo, para limpeza). A Portaria Consolidada nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da Saúde do Brasil traz, no Anexo XX, Capítulo V, Art. 38, que “os níveis de triagem que conferem potabilidade da água do ponto de vista radiológico são valores de concentração de atividade que não excedem 0,5 Bq/L para atividade alfa total e 1Bq/L para beta total”. O FDA (Food and Drug Administration) frisa que a vigilância da qualidade da água do ponto de vista radiológico é particularmente relevante se a empresa usa água proveniente de poços artesianos. Se os níveis radiológicos ultrapassarem o que está definido na legislação, a água não deve ser utilizada.

O artigo de Gary C. Smith, da Food Safety Net Services (FSNS), cita como outra medida importante a garantia da origem das matérias-primas, ingredientes e outros materiais adquiridos. A localização do produtor ou fabricante desses materiais deve ser conhecida, para entender se a região possui usinas nucleares e se há histórico de vazamento, acidentes, explosões ou desastres naturais, que possam ter levado à liberação de radiação. A radiação pode levar muitos anos para ser reduzida, e portanto, é aconselhável evitar a compra de materiais provenientes de locais com possível radiação.

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Camila Lobo Miret

Formada em Engenharia de Alimentos pela UNICAMP em 2003 e Mestre em Tecnologia Alimentar/Qualidade pela Universidade Nova de Lisboa em 2007, é proprietária da Especia Consultoria em Qualidade, empresa fundada em 2012 e especializada em consultoria e treinamento na área de segurança de alimentos e qualidade para a indústria alimentícia e de embalagens, com foco nas normas FSSC 22000, ISO 22000, ISO 9001, APPCC e BPF. Possui experiência em organismos de certificação reconhecidos, realizando trabalhos como auditora de certificação e instrutora de treinamentos em FSSC 22000, ISO 22000 e ISO 9001, e experiência na área de qualidade e segurança de alimentos em indústrias de massas secas e de produtos derivados de tomate.

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