Como a responsabilidade social influencia na qualidade e segurança de alimentos

Compartilhe:

A responsabilidade social e a qualidade e segurança de alimentos compartilham um lema comum, que é “esforçar-se para fazer a coisa certa”. Em muitos aspectos, um complementa o outro, embora existam circunstâncias em que realmente possam entrar em conflito.

O conceito de responsabilidade social, muito bem explicado por Salete Vicentini no artigo “Responsabilidade Social nas empresas”, envolve uma série de facetas, incluindo preocupações com o meio ambiente, benefícios para a comunidade, cadeia de abastecimento sustentável, bem-estar animal e boas práticas trabalhistas. Quando a responsabilidade social começou a ganhar corpo e tornar-se relevante para as organizações, muitas vezes a gestão deste tema era delegado, pelo menos quando falamos da indústria alimentícia, aos responsáveis pela área de Qualidade e Segurança de Alimentos, o que era razoavelmente sensato. Seja tentando fabricar um produto melhor ou fazer com que o mundo seja um lugar melhor, a responsabilidade social e a qualidade / segurança de alimentos compartilham uma raiz comum, que é “esforçar-se para fazer a coisa certa”.

As iniciativas para a responsabilidade social evoluíram, e algumas das grandes organizações possuem setores separados e dedicados à responsabilidade social, muitas vezes com equipes multidisciplinares. O lema “fazer a coisa certa” foi se expandindo ao longo dos anos, mas sua influência nos objetivos da qualidade e da segurança de alimentos continua. Em muitas ocasiões, entre responsabilidade social e qualidade / segurança de alimentos, há um complemento, embora existam circunstâncias em que realmente podem entrar em conflito.

Vamos comentar sobre alguns possíveis pontos de conflito e de convergência entre o conceito de responsabilidade social e o de qualidade / segurança de alimentos:

1- Validade dos produtos, insegurança do alimento e combate à fome

A fome é um problema sério no mundo, e no Brasil não é diferente. Como pode existir esta situação no país, se temos uma agricultura tão extensa? Uma das possíveis explicações é a preferência por culturas que são “exportáveis”, tais como café, soja e cana de açúcar, e que não necessariamente têm a função de alimentar a população. O artigo de maio de 2014, escrito por Anna Beatriz Anjos, para a Revista Fórum Semanal, em plataforma digital, traz uma entrevista com Sérgio Sauer, sociólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB). De acordo com ele, “a discussão entre produção de alimentos e insegurança alimentar não passa só pela produção em si, mas pelo que se produz, como se produz e para quem se produz”. Grãos e cana de açúcar não são base para alimentar a população.

Outro ponto importante é a quantidade enorme de alimentos que é desperdiçada ou descartada. Há uma estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), de que no Brasil, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada ou se perde ao longo da cadeia produtiva de alimentos. Ainda segundo a FAO, o desperdício responde por 46% da quantidade de alimento que vai parar no lixo. Já as perdas, que ocorrem sobretudo nas fases de produção, armazenamento e transporte, correspondem a 54% do total. Há que se considerar também que muitos dos alimentos descartados são produtos industrializados, e que tiveram o prazo de validade expirado, às vezes por erros na rotação de estoque dos pontos de venda, falhas no planejamento de compras, e falta de controle na casa do consumidor.

A validade dos alimentos industrializados quase sempre está relacionada com a perda de características sensoriais ou alterações de atributos de qualidade, que são facilmente perceptíveis pelo consumidor, mas que não necessariamente significam que o alimento está inseguro ou impróprio para consumo. A indústria precisa garantir a qualidade, a segurança dos alimentos e satisfazer a exigência dos consumidores, mas o grande desafio é chegar num equilíbrio entre datas de validade adequadamente estudadas e estabelecidas e formas de evitar que um produto perfeitamente íntegro seja descartado apenas porque passou um dia do prazo de validade. Somos alertados para sempre verificar a data de validade dos alimentos, o que é muito importante, e geralmente jogamos o produto no lixo assim que vence. E este produto quase sempre vai parar nos aterros.

Nos Estados Unidos, há iniciativas com grandes indústrias alimentícias para que alimentos que estejam íntegros, seguros e próprios para consumo, mesmo que não atendam aos padrões exigidos pelo cliente, possam ser doados à população carente. Há planos do governo americano para reduzir a quantidade de alimentos desperdiçados e destinados aos aterros, com a implementação de: Redução da geração de resíduos alimentares, através de melhorias no desenvolvimento de produtos alimentícios, meios de estocagem, transporte, venda, rotulagem e métodos de preparo e cocção; Recuperação de alimentos descartados (mas em condições seguras de consumo), conectando os potenciais doadores destes alimentos para as organizações de combate à fome; Reciclar resíduos alimentares em outras linhas de produção, por exemplo, para alimentação animal e compostagem.

2- Relacionamento com os funcionários x Riscos de contaminação

O clima organizacional e a forma com que a empresa trata os seus funcionários pode ter uma influência direta na qualidade e na segurança de alimentos. Ambientes agressivos ou insalubres, falta de recurso e capacitação, falhas no cumprimento da legislação trabalhista, jornadas excessivas, pressão para atingir metas e casos de assédio moral, por exemplo, desmotivam os colaboradores, e podem levar a casos de sabotagem e contaminação proposital dos alimentos produzidos, fraude, roubo de informações confidenciais, difamação da empresa, falha no atendimento às regras de higiene e outras situações de risco para a continuidade dos negócios e para a segurança do produto fabricado. Não podemos esquecer que a qualidade e a segurança de alimentos são feitas por pessoas, e elas desejam e precisam ser tratadas de forma humana, e com condições e recursos adequados para trabalho. Portanto, se a organização tem uma relação transparente e saudável com seus colaboradores, a possibilidade de haver situações de crise e contaminações intencionais do produto é reduzida. Você já pensou nisso?

3- Redução no uso de água x Procedimento de limpeza

Quando uma empresa inicia um programa de sustentabilidade, uma das primeiras preocupações é com a redução no consumo de água. E numa indústria alimentícia, por exemplo, que processa alimentos gordurosos ou derivados de leite, a higienização dos equipamentos e instalações é a principal contribuinte para as estatísticas de uso de água. E no ponto de vista dos responsáveis pela execução do procedimento de limpeza, quanto mais água, melhor: mais limpo o equipamento vai ficar. Água bem quente e sob pressão sempre foi a principal ferramenta para a remoção de resíduos de gordura. Infelizmente, o que quase sempre acontece é o uso acima do necessário das quantidades de água. Remover resíduos dos alimentos em superfícies de equipamentos com mangueiras de água pressurizada é muito mais fácil do que removê-los manualmente. É preciso treinamento contínuo e supervisão cuidadosa para que isto não se torne a prática padrão.

Usar menores quantidades de água seria então vantagem tanto para o meio ambiente, quanto para a segurança de alimentos. É isto que defende Dr. Jeffrey Kornacki, especialista em sanitização. Segundo ele, a redução da quantidade de água nos processos de higienização pode melhorar a qualidade microbiológica do ambiente fabril, por eliminar cantos com acúmulo de umidade que são ideais para o alojamento de bactérias e formação de biofilmes. Um exemplo de bactéria que aparece nas instalações de fábricas que possuem processos úmidos é a Listeria monocytogenes, que tira o sono de qualquer profissional da área de segurança de alimentos. O aumento de surtos de listeriose nos Estados Unidos nos últimos anos fez com que fossem lançados, pelo FDA (Food and Drug Administration), guias com recomendações para a redução de bactérias patogênicas nos ambientes de produção de alimentos, e as considerações para a sanitização incluem: instalar sistemas de drenagem adequada, minimizar o uso de água sob pressão durante as operações e buscar outros meios para reduzir a umidade nas áreas de processamento.

Vale então avaliar as atuais condições da fábrica, os pontos de retenção de umidade e como os procedimentos de limpeza têm sido conduzidos. É claro que não podemos deixar de realizar a limpeza, porém é possível otimizar o processo, e por tabela, minimizar os riscos de contaminação e reduzir as quantidades de água e de químicos utilizados.

Podemos concluir que as iniciativas de responsabilidade social não são aplicadas isoladamente na indústria alimentícia, mas possuem uma influência direta em vários aspectos de qualidade e segurança de alimentos. Muitas destas iniciativas coincidem em um esforço colaborativo, que traz resultados positivos para os dois lados, mas ainda há potenciais conflitos e armadilhas a serem considerados em outras situações.

Fontes:
https://www.revistaforum.com.br/digital/148/esse-ufanismo-de-que-o-brasil-e-o-celeiro-mundo-e-uma-falacia/ (acessado em 05/06/2018)
https://www.foodsafetymagazine.com/magazine-archive1/februarymarch-2018/social-responsibilitye28099s-influence-over-food-safety-and-quality/ (acessado em 05/06/2018)
https://www.huffpostbrasil.com/2018/04/08/como-o-desperdicio-de-alimentos-afeta-o-brasil-e-o-seu-bolso_a_23375621/ (acessado em 05/06/2018)

Compartilhe:

Camila Lobo Miret

Formada em Engenharia de Alimentos pela UNICAMP em 2003 e Mestre em Tecnologia Alimentar/Qualidade pela Universidade Nova de Lisboa em 2007, é proprietária da Especia Consultoria em Qualidade, empresa fundada em 2012 e especializada em consultoria e treinamento na área de segurança de alimentos e qualidade para a indústria alimentícia e de embalagens, com foco nas normas FSSC 22000, ISO 22000, ISO 9001, APPCC e BPF. Possui experiência em organismos de certificação reconhecidos, realizando trabalhos como auditora de certificação e instrutora de treinamentos em FSSC 22000, ISO 22000 e ISO 9001, e experiência na área de qualidade e segurança de alimentos em indústrias de massas secas e de produtos derivados de tomate.

2 comentários em “Como a responsabilidade social influencia na qualidade e segurança de alimentos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *